Em 2010 tinha 38 anos e arranjei uma bicicleta de estrada quase honesta para a época. Meu primeiro “treino” foi sair com ela, pegar a avenida que sai do meu quintal e que vira a Rodovia dos Imigrantes, ir nela até onde aguentasse e então voltar.
Lá pelo km18 eu avistei ao longe um ciclista. Fiz um mundo de força e depois do que pareceu uma eternidade eu alcancei o cara. Suas pernas pareciam troncos de árvore: secas, sólidas, curtidas por dezenas de milhares de quilômetros.
“O meu filho, tudo bem?”
Ali já aprendi a primeira lição: seja educado e se apresente.
Mas não parou por ali, depois de uns 10 minutos meu pneu traseiro furou. Paramos e eu comecei a trocar.
Segunda lição: “Não, filho, não precisa por a mão na corrente. Vou te mostrar…”
Seu Jaime, me ensinou a reparar um pneu furado:
coloque a corrente no pinhão menor
abra o freio
solte a blocagem sem por a mão na corrente
tire a roda (se ela enroscar, coloque os dois dedos no câmbio traseiro forçando ele a soltar a roda)
use as espátulas para tirar (ele sabia tirar sem usar espátulas, mas sabia que eu era um iniciante) remende de acordo com o que o fabricante recomenda (era um Vipal, ou seja: lixe o local do furo na câmara, corte um pedaço de remendo, passe cola de contato nos dois, espere 5 minutos, cole e segure por 2 minutos)
encha um pouco com a boca
coloque ela na roda, começando pela válvula
ao montar cuide para que o pneu clincher não belisque a câmara
encha com cuidado, verifique se está tudo certo, se realmente a câmara está toda lá dentro do pneu
o jeito certo de usar a bomba é assim (me mostrou uma maneira de não usar bíceps e tríceps, mas o ombro, com o braço flexionado, que cansa muito menos)
monte a roda no quadro, sem por a mão na corrente
confira o alinhamento
feche os freios
Meu pneu furou novamente meia hora depois, ele me deixou fazer sozinho, corrigindo meus erros.
Então recebi a terceira lição:
“Filho, você não trouxe água? Você não está com fome? Toma aqui um pouco d’água e essa bananinha…”
Inexperiente mas precavido, eu tinha as ferramentas para consertar um pneu furado, mas não tinha nem água e nem comida. Quem conhece a Imigrantes sabe que a gente normalmente pode ir até o km44 e dali escolhe se volta ou se prolonga o pedal. Ou seja, eu estava fazendo um pedal de cerca de 90K sem comida nem água. Um gênio.
Eu não sei vocês, mas eu não acredito em coincidências e independente de credo, creio que uma força maior colocou no meu caminho aquele senhor que na época tinha 57 anos, estava fazendo um pedal regenerativo porque estava doente, e que me disse que pedalava cerca de 200K “dia sim, dia não”

Ele saiu da estrada ali perto de Diadema.
“Seu Jaime, como posso agradecer o senhor?”
“Basta fazer o mesmo por alguém no futuro, filho”
Hoje tenho 44, aprendo alguma coisa todos os dias que pedalo. E por influência do Seu Jaime, que nunca mais vi, estou sempre disposto a ajudar quem precisa.

Alexandre Cruz

Colaborador

Membro da Visual Effects Society (VES), Alexandre trabalha há mais de quinze anos como artista de composição e supervisor de efeitos visuais. Ciclista e apaixonado por Bikes!

2 thoughts on “Seu Jaime – O salvador

  1. Fernando disse:

    Muito interessante , se todos nós
    tivéssemos um ” seu Jaime ” dentro
    de nós a vida seria muito melhor .

    1. Trilo disse:

      Perfeito Fernando, está faltando muitos “seu jaime” não só no ciclismo por ai!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *