Primeiramente, gostaria de dizer que é um prazer poder dividir com vocês um pouquinho da minha experiência como Cardiologista e Arritmologista e que fiquei extremamente entusiasmado quando a Luciana me pediu parar escrever sobre um tema tão palpitante.

 

Saindo um pouco do tema proposto, atualmente observamos um aumento significativo da quantidade de praticantes de esportes de alto rendimento e longa duração. Embora a prática de exercícios seja fundamental para nossa saúde, estudos recentes sugerem que sua prática durante vários anos, em volume e intensidade muito acima dos recomendáveis, podem ter relação com miocardiopatias, arritmias cardíacas, lesões de coronárias e, consequentemente, aumento da mortalidade.

 

Então vêm as dúvidas: existe um limite de treinamento? Algum exame ideal? E durante a prova? Por isso me pergunto, será que podemos usar o termo “fisiológicas”, ou seja, normais, quando nos referimos às alterações ocorridas no coração de um atleta ultra treinado durante provas de endurance, como é o caso do Ironman ?

 

Antes de falarmos sobre alterações agudas, é importante entendermos que podem ocorrer uma variedade de adaptações morfológicas e funcionais no músculo cardíaco ao longo dos anos em atletas altamente treinados e que essas alterações são responsáveis por fazer com o que o “coração treinado” consiga manter um desempenho excepcional por tantas horas e sob condições adversas como as que ocorrem numa prova longa. O conjunto dessas alterações são conhecidas como Coração do Atleta, sendo as mais comuns o aumento do volume cardíaco e a Bradicardia (queda da frequência cardíaca). Mudanças no padrão em exames de rotina, como no Eletrocardiograma e Ecocardiograma são frequentes.

 

Algumas alterações encontradas no Coração do Atleta podem ser muito semelhantes às encontradas em corações doentes, dificultando o diagnóstico diferencial. Um exemplo é a Cardiomiopatia Hipertrófica, uma doença de origem genética que causa uma hipertrofia assimétrica do músculo cardíaco, sendo a maior causa de Morte Súbita em atletas com menos de 35 anos.

 

Agora, voltando ao tema inicial: e durante um Ironman? O que seria “esperado”, “normal”, fisiológico acontecer com o coração de um atleta depois de nadar 3,8 Km, pedalar 180 km e correr “só” uma maratona para finalizar?

 

Trabalhos recentes demonstraram que o alto grau de stress a que o coração é submetido durante horas pode acarretar danos transitórios em todas suas estruturas, incluindo o sistema elétrico e o próprio músculo cardíaco, culminando com risco de arritmas cardíacas e alterações da função do coração de bombear o sangue.

 

Em dois estudos realizados em atletas de Ironman no Havaí e na Maratona de Boston, foram analisadas amostras de sangue e a função do coração através de Ecocardiograma, antes e depois da prova. Os autores observaram a presença de piora da função de contração e relaxamento do Coração em alguns indivíduos, além de aumento dos níveis de Troponina (biomarcadores de lesão do músculo do coração), que foram interpretados como uma possível “fadiga cardíaca”.

 

A determinação dos mecanismos que levam a essas alterações tem sido um grande desafio e motiva debates acalorados pelo Mundo. Mas podemos citar como um dos principais responsáveis, o somatório de uma alta frequência cardíaca durante muitas horas com um “ambiente” altamente estressante para nosso corpo, gerados por mudanças no pH do sanguíneo, aumento da temperatura corporal, estresse oxidativo e aumento de Catecolaminas (Adrenalina, Noradrenalina) circulantes. Porém, são necessários estudos mais robustos para entendermos detalhadamente o que ocorre.

 

Mas e agora? Desisto de fazer meu Ironman? Diminuo meus treinamentos? Não é bem assim!!! Essas adaptações cardíacas em que falamos, geradas ao longo de anos de treinamentos e provas, na verdade, são as responsáveis por tornar o coração saudável, “forte”, fisiologicamente adaptado e somente uma minoria de atletas vai desenvolver danos patológicos. Alguns autores sugerem que casos mais graves poderiam ter uma relação com atletas que já apresentavam uma predisposição genética e o exercício serviu para “acordar” a doença.

 

Por isso é muito importante treinar com responsabilidade, se recuperar bem, seguir as orientações de todos os profissionais envolvidos (Treinadores, Médicos, Nutricionistas, Fisioterapeutas, etc), se informar dos riscos possíveis e, lógico, evitar as “substâncias proibidas” tão comuns no esporte atualmente. Uma avaliação clínica bem feita e a realização de simples exames complementares como Eletrocardiograma e Ecocardiograma são suficientes para rastrearmos a grande maioria das alterações patológicas.

 

Se as evidências disponíveis até o momento vão mudar os métodos de treinamento em atletas de endurance, é difícil dizer, até porque a grande maioria dessa população específica não está motivada somente por saúde, mas também pela necessidade de Adrenalina e competitividade. Além disso, temos uma carência de maiores estudos nessa área até o momento.

 

Espero ter esclarecido algumas dúvidas e em outro post podemos nos aprofundar mais em outros temas descritos acima. Abraço e bons treinos!!

Referências:
1. Keith George, Greg P Whyte, John Somauroo. BJSM 2012;46; 29-36. The Endurance athletes heart: acute stress and chronic adaptation

2. Sanjay Sharma, Ahmed Merghani and Lluis Mont. Exercise and the heart: the good, the bad, and the ugly. EHJ 2015; 36; 1445-1453

3. Ghorayeb N, Batlouni M, Pinto M.F.I, Dioguardi S.G. Hipetrofia ventricular esquerda. Resposta adaptaviva Fisiológica do Coração. Artigo original Rev SBC 4/3/05

4. Carvalho T. Sedentarismo, Exercício Físico e Doenças do coração. Ed. Guanabara Koogan 2005.

Tarik Arcoverde

Colaborador

Médico com formação em Cardiologia e Arritmologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Triatleta amador desde 2013, tendo realizado várias provas de Ironman e Ironman 70.3. Classificado para Kona 2018

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