Eu ainda não sei (você sabe?), mas Edmundo Arthur Foschini sabia muito bem: nadando. Por isso propôs um desafio no qual ele estaria nadando exatamente à meia noite, na lua cheia, no Rio São Francisco entre as barragens de Paulo Afonso e Xingó.

 

PIRANHAS – ALAGOAS

Viajamos de Maceió a Piranhas no dia anterior ao desafio para descansar e finalizar os preparativos. Piranhas é uma cidade patrimônio histórico nacional, fundada no século XIX, e que foi visitada inclusive por Dom Pedro II. Mas a maior fama de Piranhas veio da polícia local, que atravessou a fronteira com Sergipe e matou Lampião, Maria Bonita e outros 9 cangaceiros, exibindo as cabeças decapitadas na praça central em 1938 (tem um museu na cidade sobre isso).

 

Hoje Piranhas é uma linda cidade ribeirinha, que vive do turismo e da Barragem de Xingó, que gera 25% da energia de toda a região Nordeste.

 

O PLANO DE 16 HORAS

O plano era claro: nadar cerca de 65km no Rio São Francisco entre as barragens de Paulo Afonso e Xingó, um trecho particularmente bonito desse rio que passa por cinco estados brasileiros.

 

Edmundo calculou que se nadássemos a uns 4 km/h e fôssemos ajudados por uma correnteza de outros 2km/h, poderíamos fazer o percurso em menos de 11 horas. E sendo bastante rigoroso na estimativa, chutando para cima, considerando trechos de calmaria e o nosso cansaço natural, poderíamos fazer em no máximo 16 horas.

 

A IDA

Partimos de Piranhas de táxi até a parte de cima da Barragem de Xingó, não sem antes visitar em Canindé do SF o exato ponto onde o ator Montagner morreu afogado durante filmagens da novela da Globo.

 

Descemos do carro já na parte de cima da barragem e montamos no barco que nos levaria até Paulo Afonso, para enfim voltar nadando. No caminho (onde paramos para almoçar) já começamos a sacar algumas coisas:

1- cadê a da correnteza?

2- será que esse vento Leste vai parar mais tarde?

3- PQP que lugar espetacular!

 

A PROVA

Partimos às 15:21 do dia 22/11/2018, véspera do aniversário do Edmundo. Água totalmente transparente e com temperatura deliciosa (estimamos 22-23 graus), sol a pino, peixes, cágados, pássaros e nenhum sinal de civilização. Até o gosto da água era gostoso.

 

As primeiras três horas foram um espetáculo, já valiam o ingresso. O único problema é que eu comecei a marcar alguns pontos nas rochas para avaliar a sensação de avanço e fiquei um pouco assustado ao reparar que a correnteza era PRATICAMENTE INEXISTENTE. Eu dava uma paradinha, olhava a parede do cânion e permanecia parado. E o vento Leste (portanto contrário a nós) começou a soprar cada vez mais forte. No entanto, a prova estava tão gostosa, mas tão gostosa que a possibilidade de não completar o desafio nem passava pela minha cabeça. Simplesmente não era importante. Importante era estar ali.

 

Passadas essas três horas, o vento apertou e eu comecei a notar que quando parávamos para nos alimentar (de meia em meia hora religiosamente) o barco andava PARA TRÁS. Para piorar, comecei a sentir não exatamente frio, mas os mamilos estavam intumescidos, de forma que achamos por bem colocar a roupa de borracha e seguir com ela. Nesse momento (18:21) o sol definitivamente foi embora e eu notei um ponto extremamente luminoso despontando no Cânion na direção NEE. Seria um foguete?

Era a lua.

 

As próximas 3 horas voaram: a roupa deu um fôlego extra, a lua iluminava quase tanto quanto o sol, o ritmo estava fluindo fácil, o sinalizador do Munhoz funcionou muito bem e pegamos no tranco.

 

O pior trecho foi aquele entre 06 e 08 horas. O cansaço bateu, o Edmundo estava um pouco enjoado e o vento, PQP, o vento parecia o furacão Katrina, e na pior modalidade possível: headwind.

 

Com oito horas de prova, exatamente às 23:21, fizemos uma reavaliação. A essa altura já era muito óbvio para mim que jamais completaríamos o desafio, o que não chegava a ser um problema, já que a sensação de estar ali, no coração do Brasil nadando naquelas águas era um privilégio que eu não podia deixar de perceber e curtir. Claro estava que não completaríamos o desafio, então combinamos de nadar mais duas horas antes de parar (depois soube que o Edmundo não acreditou muito que tínhamos avançado tão pouco…)

 

À meia noite exatamente comemos uma pera em calda para comemorar o aniversário do Edmundo. Não chegamos a cantar parabéns, não havia energia a desperdiçar. Exatamente à 12:21, com 9 horas de prova decidi que eu já estava cansado o suficiente e que não era preciso completar 10 horas. Já estava bom. Subi no barco e finalizei a prova.

TOTAL Renato Cordani: 23,8 km em 9 horas.

 

Edmundo, empolgado com seu aniversário, pediu para nadar até o amanhecer, o que foi prontamente aceito por nós, de forma que ele nadou 13h 20min. Depois ele confessou que achava que talvez estivéssemos equivocados e estivéssemos mais perto do que pensávamos. Infelizmente ele errou: estávamos longe mesmo…

TOTAL Edmundo Foschini: 37,1 km em 13h20min.

 

O CARA

Se eu tive a oportunidade sensacional de fazer essa prova é porque esse cara existe. Já expliquei anteriormente que ele foi o primeiro treinador da natação competitiva do Paineiras, e portanto o mentor de toda a linha evolutiva da cultura da natação daquele clube, inclusive trazendo o Pancho da Argentina, e consequentemente foi parte muito importante da minha formação como pessoa.

 

Idealizador e produtor desse desafio, Edmundo colocou mais um tijolo nessa história de vida tão peculiar, e com a vantagem (para mim) que desta vez eu pude estar presente.

 

Ser acolhido em sua casa (obrigado a você também, Mara Foschini!), ouvir incontáveis histórias incríveis, experiências de vida, ensinamentos, e esse exemplo de vida de aos 70 anos nadar 13 horas com o pé nas costas, conhecer uma parte do Brasil tão linda e inédita configuraram quatro dias que jamais vou esquecer.

 

O fato de não o termos completado o desafio é totalmente irrelevante.

 

Muito obrigado, mestre Edmundo, e que venham as próximas!

 

Texto publicado por:

Renato Cordani Palmeirense, geofísico, ex diretor da CBDA, nadador peba e colunista do site Epichurus.com

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