Problemas gastrointestinais são frequentes em provas de endurance, ocorrendo em até 50% dos atletas dependendo das condições da prova. Sabemos que as causas de fadiga em provas são relacionadas a desidratação, hipertermia, depleção de carboidrato, fadiga central e hipoglicemia. Portanto, é recomendado uma adequada reposição de líquidos, eletrólitos e carboidrato. Porém, existe pouca informação entre a relação das recomendações nutricionais ideais e a ocorrência de efeitos gastrointestinais (GI) negativos.

 

Os sintomas GI podem ser divididos em altos -  refluxo, queimação, náusea, vômitos, eructação e cólica estomacal; e baixos – cólica abdominal, flatulência, dor lateral, vontade de defecar, diarreia e sangramento intestinal.  Na maioria das vezes eles são leves e bem tolerados, não atrapalhando a performance. Já foi comprovado que essas ocorrências são mais frequentes em provas mais longas e quentes e também quando há consumo de fibra, gordura ou soluções muito concentradas de carboidrato.  Sabemos que a prevalência desses problemas é maior em provas de triathlon (entre 30 a 50%) que em provas de corrida e ciclismo. No triathlon, esses sintomas aparecem na sua maioria durante a etapa de corrida. Isso se dá por ser a última modalidade, geralmente quando há maior desidratação, e também por ser a modalidade com maior movimentação abdominal. A sensibilidade individual é o maior fator de risco, ou seja, pessoas que já passaram mal em prova tem maior risco de uma nova ocorrência.

 

As causas do mal estar GI são desidratação e redução do fluxo sanguíneo para o sistema GI. Especula-se que sintomas mais graves ocorram devido à endotoxemia, que é quando há um hipofluxo intenso nos intestinos, com lesão da mucosa e translocação de bactérias para a circulação.

 

Um estudo europeu relacionou nutrição e hidratação em provas com problemas gastrointestinais. Foram estudados 221 atletas, profissionais e amadores, na seguintes provas: Ironmans Hawai e Alemanha, meio iron, maratona e uma prova de ciclismo de 150km. Sintomas GI mais sérios foram mais frequentes em ironmans (32%), seguido do 70.3 (14%), e maratona e ciclismo (4%). Uma maior ingesta de carboidrato esteve relacionado com mais náusea e flatulência apenas nos IMs. O mais interessante, porém, foi a confirmação que uma maior ingesta de carboidrato esteve relacionada com uma melhor performance em todas as provas.

 

O que fica evidente é que a tolerância a nutrição em provas é algo bastante individual e variável. Porém, pode ser treinada e melhorada. Assim, a melhor recomendação é ir adaptando o corpo a fazer digestão durante o esforço físico. Para isso, tem que treinar o consumo de tudo que pretende consumir em provas, e de preferencia com esforços semelhantes. Boa hidratação é essencial também. E lógico, procure uma nutricionista para melhor orientação.

 

Referência
Pfeiffer B1, Stellingwerff T, Hodgson AB, Randell R, Pöttgen K, Res P, Jeukendrup AE. Nutritional intake and gastrointestinal problems during competitive endurance events. Med Sci Sports Exerc. 2012 Feb;44(2):344-51

Jeukendrup AE1, Jentjens RL, Moseley L. Nutritional considerations in triathlon. Sports Med. 2005;35(2):163-81.

Luciana Haddad

Médica Cirurgiã, Doutorado e Pós-doutorado pela Faculdade de Medicina da USP, Orientadora do Programa de Pós Graduação da FMUSP. Triatleta e corredora amadora, 2x Ironman Kona Finisher! Contribui com o Trilo quinzenalmente as sextas feiras, no modelo de infográfico, com a coluna: O ESPORTE BASEADO EM EVIDÊNCIAS - Como traduzir a ciência para a prática esportiva? Uma maneira inteligente de tomar decisões individualizadas, norteando-se por conceitos científicos.

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