DESGASTE MUSCULAR E PROBLEMAS GASTROINTESTINAIS

 

DESGASTE MUSCULAR

O estresse do tecido muscular pode ser o maior desafio que o corpo enfrenta em um triathlon. Um grande número de células musculares é lesionada, danificada e desconstruída ao longo do caminho. A principal causa de dano muscular é o estresse mecânico, causado principalmente por contrações musculares excêntricas. Em uma contração excêntrica, o músculo alonga quando contrai (por exemplo, durante a fase de abaixamento de um bíceps) em vez de encurtar como em uma contração concêntrica (por exemplo, a fase de elevação de um bíceps) ou permanecer no mesmo comprimento que em uma contração isométrica (por exemplo, flexionando para mostrar um bíceps). O músculo está sendo puxado em duas direções de uma só vez durante uma contração excêntrica, como um rebocador, facilitando a ocorrência de micro-lesões.

 

Uma segunda causa de dano muscular durante o exercício é o uso das proteínas musculares para energia, chamado catabolismo. A proteína não é a fonte de energia preferida durante o exercício, mas quando os estoques de carboidratos ficam baixos na última parte de um Ironman, a proteína é utilizada cada vez mais para compensar a falta de carboidratos. Como mencionado na parte 2, até o final de um Ironman, a proteína pode fornecer até 15% da energia que seus músculos usam para se manter em movimento. Se você já terminou um treino longo ou uma corrida com cheiro de amônia, isso é um sinal de que você está queimando muita proteína muscular, já que a amônia é um subproduto do catabolismo protéico. Quando o seu nível de glicose no sangue cai durante o exercício, suas glândulas supra-renais secretam o hormônio do estresse cortisol, que auxilia na quebra de carboidratos, gorduras e proteínas para liberar energia. A maioria das proteínas que se decompõem são encontradas em seus músculos.

 

O dano muscular também é causado pelo estresse oxidativo durante o exercício. Uma pequena porcentagem (cerca de 2 a 5%) das moléculas de oxigênio que entram no corpo perde um elétron enquanto participa da liberação de energia na mitocôndria, tornando-se “radicais de oxigênio”. Isso aumenta sua instabilidade e faz com que eles roubem um elétron de uma célula viva, a fim de recuperar a estabilidade. O resultado é muitas vezes uma reação em cadeia de "radicais livres" causando danos às membranas celulares, DNA e várias proteínas estruturais. Durante o exercício de endurance, a taxa de consumo de oxigênio pode aumentar até sete vezes acima dos níveis de repouso, com um aumento correspondente na produção de radicais de oxigênio.

 

Mas quanta lesão muscular seu corpo experimenta no curso de um Ironman? Um dos biomarcadores químicos usados para estimar o dano muscular é a creatina quinase (CK), que vaza para a corrente sanguínea a partir de células musculares rompidas. Em estado recuperado, o nível sérico de creatinaquinase do atleta típico é de aproximadamente 125 U/L. Vinte e quatro horas após a conclusão de uma meia-maratona, o nível de CK duplica. Um dia depois de um treino de bicicleta até a exaustão a 70% do VO2max (um pouco mais rápido do que a intensidade do Ironman para a maioria dos amadores), os níveis de CK chegam a 700 U/L. E um estudo recente descobriu que 16 horas depois de terminar um Ironman, os triatletas tinham um nível médio de CK sérico de 1500 U/L, ou mais de 10 vezes o nível normal.

 

Outras enzimas também se elevam devido ao dano muscular. As enzimas hepáticas conhecidas como transaminases (AST e ALT) já foram analisadas em estudos de maratona e ultramaratona e se elevam durante a prova, permanecendo altas por mais de 2 semanas, até voltarem aos valores basais. O mesmo ocorre com DHL e PCR.

 

OS PROBLEMAS GASTROINTESTINAIS

O triatleta profissional australiano Chris Legh fez uma cirurgia de emergência para remover metade de seu cólon após o Ironman de 1997 no Havaí. Um bom pedaço do órgão tinha literalmente morrido durante o evento devido ao fornecimento insuficiente de oxigênio. Embora esse tipo de ocorrência seja extremamente rara nas provas de Ironman, e no caso de Legh esteja provavelmente relacionado a um defeito cardíaco congênito, completar um Ironman é estressante para o sistema gastrointestinal de todos os competidores. Problemas comuns incluem desconforto no estômago e inchaço, náuseas, vômitos e diarréia.

 

Os cientistas do esporte não entendem completamente as causas de tais sintomas de sofrimento gastrointestinal durante o esforço físico intenso. Mas eles identificaram alguns dos fatores contribuintes. Em uma revisão publicada em 2005 no International SportMed Journal, os autores Stephen Simons, MD, e Gregory Shaskan, MD, escreveram: “Até agora, as teorias que contribuem focam principalmente na agitação mecânica do intestino, nos deslocamentos de fluidos, no fluxo sanguíneo esplâncnico diminuído, desidratação, aumento do tônus simpático e parassimpático, endotoxemia, alterações no tempo de trânsito intestinal, alterações hormonais e alterações autoimunes. No entanto, nenhum deles explica adequadamente toda a gama de patologias gastrointestinais. ”

 

Os triatletas podem causar alguns dos seus problemas gastrointestinais, tentando consumir muito líquido ou nutrição ou alimentos que são difíceis de digerir enquanto competem nesses eventos. O sistema gastrointestinal não tolera as mesmas taxas e tipos de ingestão nutricional durante atividades vigorosas do que em repouso. Estudos demonstraram que os atletas que fazem uso de nutrição inadequada durante os eventos de endurance têm maior probabilidade de sofrerem distúrbios gastrointestinais.

 

DEMAIS TEXTOS:

PARTE 1: PRÉ-PROVA E CONTROLE DA TEMPERATURA
PARTE 2: FORNECIMENTO ENERGÉTICO E EFEITOS DO SUOR
PARTE 3: DESGASTE MUSCULAR E PROBLEMAS GASTROINTESTINAIS
PARTE 4: FINAL DE PROVA E O PÓS-PROVA

Luciana Haddad

Médica Cirurgiã, Doutorado e Pós-doutorado pela Faculdade de Medicina da USP, Orientadora do Programa de Pós Graduação da FMUSP. Triatleta e corredora amadora, 2x Ironman Kona Finisher! Contribui com o Trilo quinzenalmente as sextas feiras, no modelo de infográfico, com a coluna: O ESPORTE BASEADO EM EVIDÊNCIAS - Como traduzir a ciência para a prática esportiva? Uma maneira inteligente de tomar decisões individualizadas, norteando-se por conceitos científicos.

One thought on “SEU CORPO NUM IRONMAN – PARTE 3

  1. Bruno Affonso disse:

    Excelente conteudo! Muito bem escrito e com muita informacao relevante

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