SEU CORPO NUM IRONMAN – PARTE 1

PRÉ-PROVA E CONTROLE DA TEMPERATURA

Completar um Ironman envolve um esforço enorme que é acompanhado por uma série de alterações fisiológicas no organismo. Vamos ver o que se passa!

 

O CORPO SE PREPARANDO PARA GUERRA

Antes mesmo da largada, o corpo já começa a passar por uma série de alterações. Devido à antecipação da prova, e a ansiedade que a acompanha, o corpo produz epinefrina (adrenalina), há um aumento da circulação sanguínea nos músculos, aumento do consumo de oxigênio – são medidas para deixar seu corpo pronto para a atividade que irá se iniciar. Essa resposta antecipatória é mediada principalmente por uma parte primitiva do cérebro (área cinzenta periaquedutal), que é responsável pela resposta cardiorrespiratória durante o exercício.

 

Essa agitação interna que você sente quando sai do carro no local do evento na manhã da prova, cercado por seus colegas competidores e pela atmosfera elétrica do Ironman, é essencialmente o mesmo sentimento que o seu cão experimenta quando você mostra a coleira.

 

Quando a prova começa, o estado bioquímico de cada sistema em seu corpo muda à medida que cada um deles responde ao desafio de nadar 3,8km, pedalar 180km e finalmente correr 42km. Entre os maiores desafios fisiológicos estão a regulação da temperatura corporal, desidratação, suprimento e uso de combustível, dano muscular, absorção e processamento da nutrição e fadiga cerebral.

 

O CONTROLE DA TEMPERATURA

A regulação da temperatura central do corpo não é um grande problema na etapa de natação do Ironman, já que a temperatura da água é inferior à do organismo. Mas na bike e na corrida a história é diferente, especialmente em dias quentes. Quase três quartos da energia que seus músculos liberam são na forma de calor. Se esse calor fosse acumulado nos músculos, acabaria causando sérios danos aos tecidos.

 

Seu corpo tem vários meios de impedir que esse calor se acumule. O mais conhecido e entre os mais produtivos é a transpiração. Mas o mais eficiente de todos é simplesmente regular sua intensidade de exercício. Quanto mais você desacelera, menos calor seus músculos produzem. É por isso que você não corre tão rápido nos dias quentes.

 

Você pode supor que a temperatura do seu corpo começa a subir gradualmente no início do ciclismo e continua a subir durante o resto da prova, atingindo seu nível mais alto quando você cruzar a linha de chegada. Isso raramente é o caso. Nos primeiros 10% a 20% da corrida, a temperatura central aumenta de forma relativamente rápida, de 37,5 para até 38,75 graus nesse período. E então, durante o restante do evento, ele fica dentro de uma faixa muito estreita – variando 0,1 e 0,2oC.

 

A temperatura corporal máxima segura é de 40 C. Mesmo nos dias mais quentes, os participantes do Ironman raramente ultrapassam esse limite. Isso ocorre porque o cérebro monitora constantemente a temperatura corporal central e produz sensações de desconforto e fadiga que o forçam a desacelerar e gerar menos calor se as coisas parecerem estar fora de controle. Trata-se de um mecanismo de autoproteção que previne danos do calor.

 

Mas esse mecanismo de autoproteção é conhecido por falhar. Isso ocorre provavelmente porque o próprio cérebro pode ficar quente demais para funcionar adequadamente durante o exercício em ambientes quentes. Quando isso acontece, o sistema nervoso central começa a funcionar mal e o atleta fica tonto, desorientado e descoordenado, podendo entrar em colapso.

 

DEMAIS TEXTOS:

PARTE 1: PRÉ-PROVA E CONTROLE DA TEMPERATURA
PARTE 2: FORNECIMENTO ENERGÉTICO E EFEITOS DO SUOR
PARTE 3: DESGASTE MUSCULAR E PROBLEMAS GASTROINTESTINAIS
PARTE 4: FINAL DE PROVA E O PÓS-PROVA

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Luciana Haddad

Médica Cirurgiã, Doutorado e Pós-doutorado pela Faculdade de Medicina da USP, Orientadora do Programa de Pós Graduação da FMUSP. Triatleta e corredora amadora, 2x Ironman Kona Finisher! Contribui com o Trilo quinzenalmente as sextas feiras, no modelo de infográfico, com a coluna: O ESPORTE BASEADO EM EVIDÊNCIAS - Como traduzir a ciência para a prática esportiva? Uma maneira inteligente de tomar decisões individualizadas, norteando-se por conceitos científicos.

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