Já sabemos que a cafeína é um dos poucos estimulantes liberados e que comprovadamente melhoram a performance, certo? Mas será que o uso diário nos torna resistentes ao seu efeito? Seria necessário então “dessensibilizar” o corpo, ficando algum tempo sem ingestão, para melhorar os efeitos? A abstenção de cafeína é um assunto bastante controverso (além de bastante difícil de ser realizado pelos aficionados por café).

 

Em um estudo recente publicado pela PLoS ONE, finalmente temos respostas mais precisas para essa decisão. Os pesquisadores espanhóis analisaram 8 voluntários que eram consumidores leves de café (menos de 50mg por dia). Durante 20 dias eles receberam uma dose de 3mg/kg (aproximadamente 200mg, que é o que a maioria dos atletas utilizam para melhora da performance). No outro protocolo, que iniciou 7 dias após finalizar o primeiro, eles receberam 20 dias de placebo (uma capsula idêntica à de cafeína).

 

Eles realizaram testes de VO2 máximo e sprints de 15 segundos na bike antes, 3 vezes durante o estudo e após os 20 dias. Quando comparadas as potências com e sem cafeína para o mesmo grupo, vemos que a cafeína levou a um aumento de 5% no primeiro dia. Na parte superior do gráfico dos resultados temos a medida do efeito da cafeína, que se mostra maior nos primeiros dias. No dia 11 vemos que o efeito foi negativo – mas esse dia foi um dia teste para a pesquisa – os atletas tomaram a pílula após o treino, e não antes!

 

 

O que percebemos nos 20 dias é que o efeito diminuí, mas nuca zera. No dia 20 ele está semelhante ao dia 6. Ou seja, a tolerância a cafeína não zeraria seu efeito, apenas diminuiria.

 

Assim, a decisão de parar de tomar café antes de provas importantes depende bastante do quanto isso afetará a rotina do atleta e o quanto ele está focado em todos os mínimos detalhes da performance. A dúvida que resta ainda é: quantos dias seriam necessários para garantir esses “boost” na performance graças à cafeína?

 

Referência:
• Beatriz Lara, Carlos Ruiz-Moreno, Juan José Salinero, Juan Del Coso. Time course of tolerance to the performance benefits of caffeine. PLoS ONE, Jan, 2019. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0210275

Luciana Haddad

Médica Cirurgiã, Doutorado e Pós-doutorado pela Faculdade de Medicina da USP, Orientadora do Programa de Pós Graduação da FMUSP. Triatleta e corredora amadora, 2x Ironman Kona Finisher! Contribui com o Trilo quinzenalmente as sextas feiras, no modelo de infográfico, com a coluna: O ESPORTE BASEADO EM EVIDÊNCIAS - Como traduzir a ciência para a prática esportiva? Uma maneira inteligente de tomar decisões individualizadas, norteando-se por conceitos científicos.

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