Para bons resultados no triathlon, é essencial que o atleta consiga correr bem após pedalar. A corrida é a terceira modalidade nas provas de triathlon, o que a torna muito mais desafiadora do que em provas exclusivas de corrida. Muitos triatletas (que muitas vezes correm bem isoladamente) tem dificuldades em imprimir o mesmo ritmo nas provas de triathlon. Alguns estudos já mostraram que há alterações na mecânica da corrida devido ao esforço muscular causado pelo ciclismo, o que torna essa corrida menos eficiente.

 

Um estudo avaliou as diferenças sensomotores, de ativação muscular, cardiovascular e respiratória entre a corrida pura e corrida após bike. No estudo, os atletas pedalaram 40 minutos à 95% do FTP antes de correrem 5km e foram comparados com outro momento no qual correram 5km após aqueceram 10 minutos na esteira. O que foi evidenciado é que existe um intervalo entre o inicio da modalidade e a estabilização da mecânica. Esse intervalo variou de 1 a 7 minutos. Esse intervalo é necessário para uma adaptação do sistema neuromuscular ao movimento da corrida, e varia entre atletas. Porém, pode ser modulado com treinos de transição. Esses treinos podem ser feitos com uma corrida curta, já que é apenas para “treinar” o corpo à mudança de modalidade, e não para treinar resistência ou a corrida em si.

 

Outra observação do estudo é de que os atletas podem se adaptar a diferentes ritmos e cadências nas quais o rendimento da corrida é melhor. A cadência na bike é um fator importante para o sucesso na corrida, sendo que alguns atletas apresentam bons resultados com cadência próxima à 90 enquanto outros com cadências um pouco mais baixas. O ritmo dos primeiros minutos na corrida também deve ser testado e adaptado individualmente, já que para alguns atletas, o início muito forte da corrida pode comprometer o final da prova.

 

Os fatores que comprometem a corrida após bike são o maior consumo de oxigênio, distribuição do fluxo sanguíneo (no ciclismo muito mais limitado aos membros inferiores e na corrida mais distribuído em todo o corpo), depleção de glicogênio, fadiga muscular e desidratação. Outro fator é alteração da mobilidade do tornozelo causada pelo esforço do ciclismo, que leva a alterações mecânicas da passada na corrida.

 

O fato é que alguns atletas correm melhor após pedalar que outros. Para esses, o impacto do ciclismo na mecânica e demais fatores da corrida é menor, e o desempenho da corrida no triathlon não difere tanto da corrida pura. Mas para todos, os treinos de transição são essenciais.

 

Referencia:

Sports Biomech. 2017 Nov 15:1-14. doi: 10.1080/14763141.2017.1391324.

Triathlon transition study: quantifying differences in running movement pattern and precision after bike-run transition. Weich C1, Jensen RL2, Vieten M3.

Luciana Haddad

Médica Cirurgiã, Doutorado e Pós-doutorado pela Faculdade de Medicina da USP, Orientadora do Programa de Pós Graduação da FMUSP. Triatleta e corredora amadora, 2x Ironman Kona Finisher! Contribui com o Trilo quinzenalmente as sextas feiras, no modelo de infográfico, com a coluna: O ESPORTE BASEADO EM EVIDÊNCIAS - Como traduzir a ciência para a prática esportiva? Uma maneira inteligente de tomar decisões individualizadas, norteando-se por conceitos científicos.

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