A imersão em água gelada após uma sessão de treinamento é hoje um dos métodos mais utilizados de Recovery. Em torno da crioimersão já foram discutidos quais os melhores protocolos; quais os efeitos agudos (imediatos) sobre aquela sessão de treinamento e, ultimamente, a discussão avançou sobre os efeitos crônicos do treinamento.

 

O treinamento tem como objetivo gerar ao longo do tempo, adaptações fisiológicas capazes de tornarem aquele organismo mais apto a prática de determinada modalidade. Quando falamos de Esporte de Endurance, apesar de variáveis como Limiar de Lactato, VO2 máximo e Potência Aeróbia Máxima serem amplamente utilizadas no controle da Performance e da Evolução ao Longo das Sessões de Treinamento, é a resposta a nível molecular que mais define tais ganhos adaptativos.

 

Uma sessão de Endurance exige o máximo da eficiência oxidativa da célula muscular, em outras palavras, para sustentar a atividade por bastante tempo, a célula muscular precisa de forma eficaz transformar oxigênio em energia. Assim, levando em conta o aspecto molecular, a principal adaptação que a atividade aeróbia é capaz de gerar é a modificação da chamada biogênese mitocondrial; na qual se entende o aumento do número destas organelas celulares, a otimização de sua função e de sua capacidade oxidativa.

 

Mas o que isso tem a ver com a imersão em água gelada? Recentemente, alguns estudos tem questionado uma possível interferência no processo adaptativo da biogênese mitocondrial. Mais ou menos assim: a imersão pode até melhorar a sensação de recuperação pós-treino, ou até auxiliar em uma melhor noite de sono, mas o uso dela ao longo dos ciclos de treinamento irão interferir no seu ganho condicional. Será?

 

Uma Revisão da Literatura publicada em Abril de 2018 em importante Revista Científica; realizada por um grupo australiano do Instituo de Saúde e Esporte da Universidade de Victoria (Melbourne) e liderados pelo cientista James R. Broatch; mostraram que apesar da densa literatura científica em torno da imersão, poucos estudos - mais precisamente 3 - abordam a interferência crônica da imersão em nível celular e, que diferente do que se trata no meio esportivo, o efeito se não for levemente positivo (ou seja a imersão auxiliando na expressão de proteínas envolvidas na biogênese mitocondrial) ele não é negativo.

 

Claro que pelos resultados, pelos poucos estudos e pelos métodos até então utilizados, novos estudos irão surgir; mas fato que podemos dizer que cada vez mais a incorporação de estratégias de Recovery serão bases fundamentais de uma boa periodização de treinamento.

 

Até uma próxima!!

Gustavo Magliocca

Colunista

Médico do Exercício e do Esporte pelo Hospital das Clínicas, USP. Médico titular da seleção brasileira de Natação nos Jogos Olímpicos de Londres (2012) e Rio de Janeiro (2016). O “Doc” como é conhecido contribui com o Trilo quinzenalmente as segundas feiras com a coluna: MITOS E VERDADES DA PERFORMANCE NO ESPORTE - tudo que de fato é real ou apenas boato no esporte.

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