Temos acompanhado um aumento significativo tanto da quantidade de provas de xtreme triathlon ao redor do mundo quanto do número de triatletas interessados por este tipo de prova. Provas de xtreme triathlon não são exatamente uma novidade, o Norseman por exemplo existe há pouco mais de uma década. Mas, na minha opinião, há alguns fatores que tem contribuído para este recente crescimento: ao mesmo tempo em que há um número cada vez maior de atletas que não aceitam mais situações como casos de vácuo e doping nas provas do circuito “tradicional”, há também uma tentativa de resgatar a essência e os valores do triathlon.

 

E, de certa forma, o xtreme triathlon tem se apresentado como uma alternativa para os atletas que valorizam mais a jornada, o auto-conhecimento e a superação; do que simplesmente o resultado e a classificação. E de quebra as provas ainda oferecem belezas naturais de tirar o fôlego!

 

Mas afinal, o que é um xtreme triathlon ?
Existem várias características além obviamente da dificuldade da prova como o próprio nome sugere. Nem toda prova dura é um xtreme triathlon, como é o caso do Ironman de Lanzarote.

 

Um xtreme triathlon é caracterizado por ganho de elevação significativo tanto na etapa de ciclismo quanto de corrida e/ou condições climáticas muito adversas. Aqui vale a máxima “quanto pior, melhor”. Um bom exemplo de prova que apresenta estas duas características é o Icon Xtreme Triathlon na Itália : natação a mais de 1.800m de altitude, mais de 5.000m de ganho de elevação no ciclismo e mais de 1.500m de ganho de elevação na corrida, com chegada a 3.000m de altitude. A temperatura é negativa nos pontos mais altos do percurso e não é descartada a possibilidade de nevar durante a prova.

 

As distâncias de um xtreme triathlon são muito próximas de uma prova full distance tradicional, mas não há rigidez quanto a isto. O percurso de ciclismo do Icon por exemplo tem 195km. Esta variação é decorrente de uma outra característica das provas de xtreme triathlon : na maioria das vezes o percurso é ponto a ponto, ou seja, inicia num local e termina em outro. Isto torna a logística da prova muito mais complexa tanto para a organização quanto para os atletas (este assunto vale um texto específico, que pretendo abordar no futuro). Além disto o percurso não é fechado ao trânsito de veículos e a navegação é responsabilidade do atleta.

 

O processo de inscrição também é bem diferente, normalmente envolve sorteio de vagas e análise de currículo esportivo. E o número de vagas é bem reduzido, dificilmente supera 250 atletas.

 

Num xtreme triathlon a estrutura da prova disponível aos atletas durante o percurso é mínima, mas isto não deve ser confundido com falta de organização, que aliás costuma ser impecável. Não espere staffs para ajudar a tirar seu wetsuit ou postos de hidratação a cada 10km. O único apoio (nutricional, mecânico, emocional, navegação, etc.) que o atleta terá na prova será de sua equipe própria de suporte (obrigatória) que deverá acompanhá-lo durante todo o percurso. Aliás, uma das principais características de um xtreme triathlon é o clima de camaradagem que existe entre os atletas e entre as equipes de suporte, que inclusive é incentivado pela organização da prova. A cooperação também é comum entre os organizadores das provas. Lembram do resgate dos valores e do espírito esportivo do triathlon que mencionei no início do texto... ?

 

Não é de se estranhar portanto que não haja pódio nas cerimônias de premiação e que algumas provas sequer divulgam a classificação ou tempo de conclusão dos atletas.

 

Agora que já está explicado o que é um xtreme triathlon, no próximo texto abordarei as características de algumas das principais provas ao redor do mundo.

 

Foto : crédito Celinho Herardt – Fodaxman 2017

Fernando Palhares

Colunista

Fernando Palhares (@xtri.man) é triatleta há mais de 14 anos. É um dos organizadores do Fodaxman, a primeira prova de xtreme triathlon da América Latina. Foi o primeiro atleta não-europeu a participar do Alpsman (França), é o atual vice-campeão do Fodaxman (Brasil) e melhor atleta latino-americano na história do Swissman (Suíça). Está em constante contato com os organizadores de algumas das principais provas de xtreme triathlon ao redor do mundo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *