50 IRONS EM 50 DIAS. SERÁ MESMO?

Dias atrás publiquei no meu instagram que a blogueira fitness norte-americana Arshley Horner estava prestes a iniciar o desafio de completar 50 Ironmans em 50 dias seguidos em 48 estados norte-americanos e 2 vezes no Haiti.

 

O desafio foi baseado no que o também norte-americano James Lawrence, mais conhecido como Ironcowboy, havia proposto a se fazer em 2015: 50 IM-50 dias-50 Estados. Ele, por sua vez, parece ter se inspirado no desafio das 50 maratonas feitas pelo Dean Karnazes pelos EUA.

 

Mas e aí, eles conseguiram? Como funciona isso?

O Karnazes não só conseguiu, como seu livro virou um best seller de corrida. Foi o primeiro livro de corrida que li e gostei bastante. Ele percorreu 50 estados norte-americanos, mesclando maratonas oficiais no final de semana com apenas o percurso delas, quando lhe tocava correr em dias de semana. Ele era acompanhado por pessoas locais por onde passava e com isso criou todo um mito sobre si, tornando-se referência até hoje nas ultradistâncias.

 

O desafio do Ironcowboy assusta a todos quando você comenta com as pessoas. Como pode alguém fazer 50 irons seguidos e ainda mais mudando de Estado? Pois é, comprei o livro dele, comecei a ler e...me desanimei. Um amigo me havia alertado sobre as controvérsias de sua tentativa. Para resumir: o que Lawrence fez foi realmente incrível e, até hoje, pode ter sido o maior feito de ultra endurance alcançado por um atleta mas, na minha opinião, baseado no que li do livro e do que vi das postagens em redes sociais, não foram 50 irons em 50 dias. Por que? A resposta mais básica e também tema da maior controvérsia é que num dos irons ele “correu” os 42km da maratona num elíptico de academia. No livro ele argumenta que o pé estava estourado, que se arrepende da escolha, mas que o esforço não deve deixar de ser reconhecido. Muita gente comentou na internet que o desafio deveria ter parado por ai, porque fazer elíptico não está nas regras de um Ironman. Outras controvérsias foram o fato de se valer do vácuo na bike; de ter feito natação assistida (algo que o desclassificaria em qualquer Ironman.); e de ter terminado o último iron após a meia-noite, o que daria 51 dias.

 

O grande problema é que aqueles que criticaram foram vistos como “haters” ou pessoas “sem nada pra fazer além de cuidar da vida dos outros”. Quando alguém se propõe a fazer um recorde deste, tenho pra mim que tem que estar aberto a todo tipo de verificação, ou então não chama de recorde, chama de desafio pessoal.

 

O caso da Ashley é mais atual, está rolando essa semana. Quando ela anunciou o fato de tentar 50 irons já recebeu a primeira (e tenho que dizer que foi mais do que justa) crítica: como alguém que nunca fez nenhum Iron se propõe a fazer 50 de uma vez?! Pois é, vocês leram certo. Ela descreveu todas as provas de ultra que teria feito nadando, pedalando ou correndo mas nunca havia feito as 3 modalidades juntas. Dureza né?

 

O desafio da Ashley ganhou bastante repercussão, saindo em jornais e revistas especializadas. Quem não gostaria de publicar a história de uma atleta desafiando os limites do corpo humano para ajudar um orfanato no Haiti sob o slogan de “Woman of Iron”?

 

Pois bem, o desafio da Ashley terminou com 2,32 Ironmans dos 50 prometidos e um diagnóstico de rabdomiólise. Ela, no entanto, se nega a aceitar que terminou e diz nas redes sociais que irá voltar.

 

O caso está gerando enorme controvérsia e muitos estão questionando até certos feitos do passado atlético dela, que realmente carecem de comprovação.

 

O caso dela nos sucinta perguntas muito interessantes:

Se estava claro que ela não conseguiria, por que começou? Apenas promoção pessoal?

 

Ao usar a desculpa de arrecadar dinheiro para as crianças do Haiti, ela estaria apenas se blindando das críticas recebidas? Veja o insta dela, o que mais tem é gente defendendo-a.

 

A comunidade do triathlon está mais revoltada com ela do que com o Ironcowboy por ser mulher? Ou pelo fato de que, diferentemente do cowboy, ele não tinha nenhum histórico no esporte e estaria utilizando-o apenas para se promover?

 

O quão verificável são esses super recordes de endurance, uma vez que o único controle é feito apenas pelo próprio interessado?

 

Vale tudo por uns seguidores a mais, até quase morrer por lesão muscular?

 

Vamos aguardar os próximos capítulos!

">

Correndo por Ai

Colunista

Blogueiro do instagram @correndoporai e triatleta amador, é historiador formado pela Universidade de São Paulo e diplomata de profissão. Apaixonado pelos esportes de endurance e por suas curiosidades, busca sempre uma boa história para compartilhar por aqui, seja em livros, artigos, podcasts, filmes ou em uma daquelas belas discussões nas redes sociais. 6x Ironman, espera chegar em Kona nem que seja pela teimosia.

3 respostas para “50 IRONS EM 50 DIAS. SERÁ MESMO?”

  1. Diogo disse:

    Eu fui um dos que questionou essa meta “super ousada” de tentar fazer 50 ironman sem ter feito nenhum sequer. A causa é nobre e acho bacana o dinheiro arrecadado, mas me incomodou um pouco a forma de divulgação. Eu tentei acompanhar pelas redes sociais mas as postagens eram vagas e deixam muito margem para interpretação. Seria fantástico se ela conseguisse, ou tivesse chegado perto como o Iron Cowboy, mas percebo que foi muito mais marketing do que um desafio esportivo.

  2. Fernando Palhares disse:

    Excelente texto como sempre PC. Fico me perguntando se estes atletas (?) fariam estes desafios apenas pela realização pessoal e pelos valores dos esportes de endurance. Infelizmente me parece que são motivados apenas pela visibilidade e auto-promoção geradas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *