MEDO DE QUÊ?

 

Desde que iniciei esta coluna tenho recebido diversas perguntas e sugestões sobre temas e situações a serem discutidas sobre a perspectiva da psicologia, e um dos temas mais comuns aplicados a questão do triathlon tem sido o medo e a ansiedade em relação a natação em aguas abertas. Afinal, em um esporte em que muitos iniciam tarde e o contato com a modalidade aquática é primordialmente feito em piscina, aventurar-se no mar ou em um lago, sem a possibilidade de ver o fundo (e consequentemente sem saber o que pode estar ali embaixo), sem a segurança da proximidade da borda e ainda com inúmeros atletas disputando o mesmo espaço, nem sempre é uma experiência tranquila, para se dizer o mínimo.

 

Tenho certeza de que o coração de muita gente já acelerou só de ler a descrição acima. Isso porque o medo tem uma característica irracional forte e uma expressão física intensa. Mesmo tranquilos, na segurança de sua mesa, lendo sobre o assunto no computador, o simples fator de imaginar uma situação de medo já é, muitas vezes, suficiente para eliciar as respectivas respostas comportamentais.

 

O medo se expressa em um processo de feedback positivo, aonde a antecipação gera a ansiedade, que gera os sintomas físicos, que aumentam os pensamentos negativos, que fazem com que a percepção de fatores como a hiperventilação, o esforço de uma prova, a agua que entra pelo canto da boca e a dificuldade de nadar com muito contato físico, sejam interpretados como ameaças a vida, e todos estes fatores vão se reforçando e transformando a situação em um quadro de pânico insustentável.

 

Neste quadro identificamos portanto, três fatores de fundamental importância, a compreensão racional da situação, o controle regulatório das reações físicas e a capacidade de interpretação adequada das percepções.

 

A compreensão racional na maioria das vezes, no momento do medo, é incapaz de mudar a forma de pensar do atleta. Ela precisa ser trabalhada antes da situação de medo. Entender as probabilidades de afogamento, conhecer e saber identificar os pontos de segurança (ex. caiaques), saber que os peixes do fundo não estão interessados nos nadadores e confiar na capacidade adquirida nos treinamentos de nadar a distância da prova, são exemplos de conceitos que precisam estar firmes na cabeça dos atletas.

 

Aprender a entender e a controlar a respiração, relaxar a tensão muscular e acalmar o pensamento são habilidades que ajudam o atleta a diminuir o efeito do medo sobre ele, interrompendo o sinal de perigo que surge do pensamento e cresce no momento em que a respiração e o batimento cardíaco aceleram e a musculatura se enrijece.

 

O terceiro fator tem a ver com a capacidade de interpretação do atleta daquilo que é reação normal ao medo e a ansiedade, assim como dos fatores da prova e da melhor forma de compreendê-los. Reações como, por exemplo, a hiperventilação, que costuma estar muito mais relacionada a estados de ansiedade, ao rápido aumento da frequência cardíaca e respiratória, que ocorrem normalmente nas largadas de prova, e muito relacionada a baixa temperatura da água. Ao interpretar esta reação como algo esperado e natural, a situação passa a não ser significada como dificuldade de respirar, sensação de falta de ar, e sinal de afogamento, mas como algo que demandará calma, concentração, foco no ritmo de braçadas e controle da respiração. Trabalhando estas capacidades junto com exercícios de auto fala, uso de palavras chave e adaptação a situações de estresse, o atleta passa a assumir o controle sobre seu medo e rapidamente focar na solução mais produtiva. Desta mesma forma, fatores como o contato físico com outros atletas, a sensação de “coração na boca” ou a prevalência de pensamentos negativos, podem ser trabalhados e desenvolvidos.

 

A manifestação ou o controle de cada um destes fatores poderá alimentar ou tirar a força de um processo cerebral primitivo, responsável por perceber ameaças à vida e soar com toda a sua força um alarme que faça, no nosso caso o atleta, buscar qualquer alternativa que o afaste deste perigo. É um comportamento inato, presente nos medos, fobias e ataques de pânico. Seu controle, portanto ocorre da mesma forma, através de técnicas psicológicas cognitivas e comportamentais, em um processo que irá variar de acordo com a intensidade das reações do atleta.

 

Reconhecer, entender e superar estes medos, assim como o de largar em uma prova longa, descer uma descida técnica em alta velocidade na bike ou qualquer outro medo, pode não ser um processo simples, mas a realização de ser capaz de fazer algo que antes parecia impensável com certeza vale a pena.

 

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Arthur Ferraz

Colunista

Psicólogo pela PUC-SP, Especialista em psicologia do esporte, responsável pela preparação mental de atletas olímpicos de diferentes modalidades nos jogos de verão e inverno. Psicólogo do Clube Paineiras do Morumby, já trabalhou com as confederações de desportos aquáticos e desportos de inverno. Pratica triathlon há 17 anos, somando 13 IRONMANS e 4 participações em Kona.

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