A Compreensão do papel da psicologia, ou de termos similares como a cabeça, a parte mental e o psicológico, no desempenho de um esporte como o triathlon é dividida em duas principais vertentes. A primeira é de atletas e treinadores que acreditam que o que determina o rendimento em uma competição é o treinamento físico, que a única coisa que pode melhorar o seu desempenho é treinar mais ou melhor. A segunda é daqueles que reconhecem os desafios mentais envolvidos em uma competição e consideram o desenvolvimento dos aspectos psicológicos fundamental para o resultado final. Mas mesmo este último grupo tem, muitas vezes, dificuldade para definir exatamente qual a influência, o impacto e o papel da preparação psicológica dentro do processo do treinamento.

 

Por isso aproveito este artigo inaugural para apresentar uma visão mais geral do trabalho da psicologia do esporte e ao longo dos meses irei abordando alguns temas e aspectos de forma mais específica, buscando aplicar este olhar em situações concretas de provas e treinamentos.

 

Mas para iniciar gostaria de dar uma visão pessoal. O ponto principal para o desenvolvimento de um atleta é o treino. Não adianta focar a atenção e a energia toda nos 1% diferenciais, ou marginal gains, se os outros 99% são negligenciados. O que torna o atleta melhor é o seu treino, mas muitas vezes fatores como a recuperação, a alimentação e, neste caso, as capacidades psicológicas, podem impedi-lo de desenvolver todo o seu potencial. Um exemplo que costumo dar é de um excelente atleta, consideremos nível 100 (unidade arbitrária), que em uma competição consegue apenas performar em nível 80 (80% de sua capacidade). Este atleta irá ter um resultado pior do que um atleta de nível menor, digamos 90(UA), mas que na prova consegue atingir 86 (95% de sua capacidade). Entender o que concretamente faz o primeiro atleta perder 20% de sua capacidade no momento da competição e ajuda-lo a desenvolver todo o seu potencial é parte do papel da psicologia.

 

A psicologia do esporte olha portanto, para a interação entre emoções, sentimentos, sensações, pensamentos e comportamentos, decorrentes da atividade esportiva e que também estão constantemente influenciando tudo o que fazemos.

 

Para entender estes fenômenos olhamos para três eixos principais. O primeiro é o das habilidades psicológicas. Capacidades como atenção, concentração, controle da ansiedade, tomada de decisão, motivação e etc, que podem determinar mais diretamente o resultado de uma prova, através de ações positivas ou negativas. O segundo é o ambiente competitivo. Condições de treino, competitividade, rotina, comunicação com o treinador e a forma como o atleta pensa a respeito de seu esporte, que podem facilitar ou criar problemas no dia a dia e no momento da competição. O terceiro diz respeito a condição emocional do atleta, como sua vida pessoal, características de personalidade e pensamentos favorecem ou dificultam o envolvimento competitivo.

 

Com todos estes ingredientes compreendemos, planejamos, executamos e avaliamos cada caso, cada atleta e cada competição, corrigindo falhas e proporcionando ferramentas, que podem fazer o atleta render mais, melhor e ser mais realizado com a atividade que escolheu praticar.

Arthur Ferraz

Colunista

Psicólogo pela PUC-SP, Especialista em psicologia do esporte, responsável pela preparação mental de atletas olímpicos de diferentes modalidades nos jogos de verão e inverno. Psicólogo do Clube Paineiras do Morumby, já trabalhou com as confederações de desportos aquáticos e desportos de inverno. Pratica triathlon há 17 anos, somando 13 IRONMANS e 4 participações em Kona.

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