Nesta coluna vou falar sobre um tema um pouco mais específico, a Ansiedade. Não que se consiga ser muito específico com um tema tão amplo como este em apenas um texto, mas vamos começar entendendo um pouco este conceito, para depois nos aprofundarmos em seus efeitos e formas de expressão.

 

Definiria a ansiedade como uma reação antecipatória a um evento ou situação importante, que gera uma resposta física e emocional intensa, na tentativa de preparar corpo e cérebro para a situação em si. Ela depende da importância que damos a uma situação específica e do equilíbrio entre o tamanho do desafio e nossa percepção sobre a capacidade de enfrenta-lo.

 

Sempre que vemos o desafio como grande demais, comparado com a nossa própria capacidade de enfrenta-lo, o nível de ansiedade aumenta. Começamos a antecipar as dificuldades, as dúvidas aumentam, o pensamento negativo aparece e o corpo começa a acompanhar. As mãos suam, o coração e a respiração aceleram e as descargas de hormônios como a adrenalina tentam nos preparar para o desafio.

 

Começamos olhando então para a reação antecipatória, para a importância que damos a determinado evento. Uma viagem, uma promoção, um encontro em geral nos trazem expectativas grandes. Pensamos em como vai ser, imaginando os momentos e fazendo planos para aproveitarmos ao máximo a situação. E quanto mais importante o evento, maior é a expectativa. Uma viagem ao Havaí tende a gerar mais expectativa que uma ao litoral de sua cidade, o encontro com a garota dos seus sonhos mais do que um encontro acompanhando um amigo.

 

Mas é a partir desta expectativa que o pensamento tem função importante, ele avalia as possibilidades e assume uma perspectiva positiva ou negativa de acordo com padrões pessoais, com a autoestima e a confiança de cada indivíduo. Se a importância do evento controla a magnitude da expectativa, é a polaridade negativa que a transformará em ansiedade. Largar em uma prova de triathlon, em um mar de aguas transparentes em uma prova importante como o Ironman do Havaí pode gerar uma expectativa positiva grande, mas imaginar a possibilidade de apanhar na largada, de não conseguir completar a distância, de um tubarão aparecer, ou de nadar mal e prejudicar o resultado nesta prova tão importante, criará e amplificará o nível de ansiedade.

 

A perspectiva com que o atleta encara uma competição, portanto, será o primeiro grande fator gerador de ansiedade. Assumir o lado produtivo, valorizar as experiências e oportunidades e abordar cada desafio como chance de se tornar um atleta melhor, tende a diminuir o nível de ansiedade, enquanto se levar a sério demais (treino muito e preciso conquistar esse resultado), utilizar os resultados como base da autoestima (se vou bem sou uma pessoa capaz, se vou mal sou um incompetente) e negar a possibilidade de provas ruins (não posso andar mal ou perder deste adversário) tendem a multiplicar esta ansiedade.

 

Uma vez desenvolvida a perspectiva adequada, o atleta precisa trabalhar bem o seu estabelecimento de metas, adequando seus objetivos a sua percepção de capacidades e sua confiança em alcança-los. Cada treino bem feito, cada desafio superado, cada bom resultado, precisa ficar guardado na mente do atleta para equilibrar esta balança. Se o imprevisto faz parte de uma competição esportiva, a confiança tem de vir da capacidade de lidar com imprevistos, de desenvolver planos A, B e C e saber se adaptar em situações inesperadas.

 

Controlar a ansiedade é um jogo mental complexo e precisa ser desenvolvido individualmente por cada atleta. Por um lado a capacidade racional cria estratégias, avalia a realidade das situações e desenvolve planos de contingência. Por outro lado as emoções são amplificadas pelo medo, a insegurança e as necessidades do ego. E neste jogo o atleta ainda precisa nadar, pedalar e correr. Neste cenário manter um nível adequado de ansiedade pode ser a receita para um melhor desempenho.

Arthur Ferraz

Colunista

Psicólogo pela PUC-SP, Especialista em psicologia do esporte, responsável pela preparação mental de atletas olímpicos de diferentes modalidades nos jogos de verão e inverno. Psicólogo do Clube Paineiras do Morumby, já trabalhou com as confederações de desportos aquáticos e desportos de inverno. Pratica triathlon há 17 anos, somando 13 IRONMANS e 4 participações em Kona.

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